O que aconteceu?

A mãe da Isa deu entrada no Hospital São Luis (Cáceres-MT) em 06/Out, se queixando de sangramento e dores, mas foi liberada no dia 07/Out, sem um diagnóstico.

Por conta própria, buscou um diagnóstico nos dias seguintes, sem sucesso.

Em 10/Out, agora com contrações, foi encaminhada de ambulância de volta ao São Luis. Chegou ao hospital pouco antes da meia noite. Aguardou quase uma hora para a triagem. A triagem foi realizada por alunos de medicina, que se perdiam entre papéis, preenchiam dados no computador, demonstraram dúvidas sobre o significado de "Reagente" nos exames apresentados e questionaram uma professora se a palavra "extenso" se escreve com S ou X sem, contudo, dar atenção à paciente.

Por orientação dos tais alunos, a médica de plantão sugeriu que Isa e sua mãe fossem liberadas, o que gerou discussão. Ao final, "só porque querem", disse a médica, "vou internar". O quarto da internação foi liberado somente perto das 04h00 (quatro da manhã), tendo que se aguardar pela liberação em uma cadeira de corredor.

Seguiram-se dias em que o único tratamento foi remédio para dor.

Na noite de 11/Out, entre 20h e 21h, a bolsa rompeu e houve perda de líquido. Era urgente a realização de exame de ultrassom, para saber se Isa ainda estava viva. Mesmo com equipamento disponível, o Hospital São Luis disse ser necessário aguardar até o final do dia seguinte, já que o operador da máquina poderia (sem certeza) chegar ao final do dia, em razão do feriado. Dada a urgência, conseguimos uma médica habilitada, que poderia fazer o exame na mesma noite, com o equipamento do hospital, mas negaram o uso do equipamento.

Pela indecisão, solicitamos a transferência para Cuiabá, onde uma equipe já nos aguardava. Uma ambulância ficou de prontidão, mas o hospital não autorizou a transferência, alegando que havia ultrassom no São Luis. Houve discussões a respeito e, neste tempo, o quadro de saúde piorou.

Piorou a ponto de não se poder mais realizar a transferência, sem risco de morte para mãe e bebê. O Hospital São Luis impõs à família a difícil decisão de simplesmente "esperar" para saber se a Isabelle sobreviveria ou assumir o risco de, por conta própria, realizar a transferência, com risco altíssimo de mãe e bebê morrerem na estrada.

Sem opção, a mãe da Isa permaneceu internada no São Luis. Foram-se vários dias, tendo como tratamento soro e remédios para dor.

Até que em 15/Out, por volta das 15h, as dores aumentaram e avisamos a equipe de enfermagem, que respondeu dizendo que o médico plantonista "estava vindo". Os pedidos pelo médico se prolongaram durante todo o restante do dia, sem que ele comparecesse.

Na madrugada entre 15/Out e 16/Out, a mãe da Isa entrou em trabalho de parto. As enfermeiras se recusaram a prestar atendimento, alegando não haver remédios prescritos, o médico plantonista chamado, ainda durante a tarde, não havia aparecido e seguiram-se horas e horas de dor intensa, sem suporte médico, mesmo internada no Hospital São Luis.

Já por volta das 07h, Isabelle nasceu: de parto natural (mesmo havendo recomendação de cesária); em um quarto simples (pois não foi levada ao centro cirúrgico); acompanhada de técnicas de enfermagem, sem a presença de médico obstetra e pediatra.

Nasceu de bubum, quando a posição ideal seria de cabeça e o cordão umbilical, durante o parto, fez um nó em volta do pescoço, de modo que Isabelle nasceu sem vida.

O que contribuiu para isto?

Uma sequência de erros cometidos pelo Hospital São Luis contribuiram, dentre elas:
Triagem deficiente

Triagem deficiente

A classificação de risco foi realizada por alunos de medicina, que demonstraram não saber o significado de "reagente" em exame laboratorial.
Omissão de socorro

Omissão de socorro

O médico plantonista não apareceu. Somente após a troca de plantão, uma médica chegou até o quarto, já tarde demais.
Enfermagem negligente

Enfermagem negligente

Na madrugada anterior ao parto, a enfermeira responsável ignorou todos os pedidos de ajuda.
Burocracia

Burocracia

Questões burocráticas impediram a transferência e o uso do equipamento de ultrassom disponível no hospital.
Demora no atendimento

Demora no atendimento

Foi de uma hora o tempo de espera para a triagem e de ao menos quatro horas para a internação.
Violência obstétrica

Violência obstétrica

O despreparo tornou o parto doloroso e traumatizante, com rompimento de vasos sanguíneos que causaram o tom vermelho nos olhos (foto).

O que já fizemos a respeito?

Na noite da triagem, registramos uma reclamação escrita no Hospital São Luis (sem resposta até agora);

Na data do parto, registramos uma reclamação pessoalmente, perante a Ouvidoria do hospital e sua diretoria, que se prontificou a apurar, mas ainda não se posicionou de forma concreta;

Registramos também uma reclamação na Pro Saúde, responsável pelo Hospital, onde foi gerado o protocolo "763g404F428n" e que segue sem resposta;

Por fim, encaminhamos Denúncia ao Ministério Público, tendo sido gerado o número de registro 003302-005/2019 e que aguarda providências.

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Sabemos que a perda é irreparável, mas temos consciência de nossa responsabilidade. Se, antes de nós, gestantes que passaram pela mesma experiência tivessem tido condições de chamar a atenção para estes problemas, muito provavelmente não teríamos passado pelo que passamos. Mas a partir de 16 de Outubro, caso qualquer outro recém nascido venha a sofrer pelas mesmas razões, parte da responsabilidade também é nossa por não termos denunciado às autoridades competentes às irregularidades que são cometidas.