Relato da mãe da Isa, a senhora Fernanda Schiavo

Desde quando eu era criança, sonhava em crescer e me tornar mãe. Sempre achei lindo o dom de gerar um filho, carregar uma vida durante meses, sentir os movimentos de um bebê, até que finalmente viria a emoção daquele primeiro olhar, de ter nos braços aquele pequeno ser tão desejado, tão esperado, tão amado.
E quando vinha aquela famosa pergunta que a qual todas as crianças são submetidas “O que você quer ser quando crescer?”, minha boca respondia uma profissão qualquer e meu coração gritava “mãe”.
Hoje tenho quase 8 anos de casada e desde que começamos a namorar, passamos a dividir esse sonho de ter nosso bebê em um futuro próximo. Sempre sonhamos em ter uma menininha e antes mesmo de nos casarmos, já havíamos escolhido o nome da nossa filha.
Após o casamento, logo nos primeiros meses já vinha a frustração mês após mês. Por incentivo do meu esposo iniciei um curso superior e planejamos a nossa tão sonhada gravidez para o ultimo ano da faculdade, ainda assim não desistimos de tentar nos 3 primeiros anos.
No inicio do meu ultimo ano da faculdade, decidi então procurar uma ginecologista e fazer alguns exames pré gestacionais, pra ter certeza de que estava tudo bem e pudéssemos enfim naquele ano engravidar. A Dra disse que estava tudo bem e que não havia encontrado nada que pudesse nos impedir de realizar nosso sonho. O ano passou e nada.
Um pouco mais de 4 anos após nosso casamento e nosso tão sonhado bebe, não vinha. Decidimos em tão procurar especialistas e nos aprofundar mais e em 2016, descobrimos então que nossas chances de engravidar de forma natural era praticamente nula e fomos orientados a procurar uma clinica de fertilidade.Nosso mundo desabou, o que deveria ser algo natural, pra nós seria uma luta.
Depois de fazer um primeiro contato com a clinica de fertilização, entendemos que ainda havia um longo caminho a ser percorrido, porque embora seja maravilhoso que existam profissionais capacitados pra ajudar casais assim como nós a realizar nosso sonho de ter um filho, estes tratamentos não fazem parte da realidade financeira de qualquer pessoa. São inúmeros exames, inúmeros profissionais envolvidos, medicações caríssimas, procedimentos dolorosos e por mais que quiséssemos dar inicio, estes custos não faziam parte da nossa realidade financeira naquele momento.
O ano de 2016 acabou, 2017 passou, 2018 chegou e depois de muita luta, de muitas noites mal dormidas, muitas lagrimas, muita revolta, com a benção de Deus conseguimos finalmente juntar o montante necessário para o tratamento.
Entramos em contato com a clinica, solicitamos que nos enviassem a lista de exames, para que na data da consulta já fossemos com todos os resultados e assim ganharíamos tempo. Assim fizemos. Tão perto de realizar nosso sonho, mas não seria tão fácil assim, um dos exames solicitados, era uma ultrassom de mama e no momento que realizava este exame e ultrassonografista me disse que havia encontrado um nódulo, de tamanho considerável e apontou no laudo a necessidade de realizar biopsia.
E quando eu achava que estava perto, me senti sem chão novamente. É impossível não associar um nódulo ao câncer, ali foram noites e noites sem dormir, pois eu senti muito medo, medo de ser câncer, medo de não poder fazer o tratamento por causa desse nódulo, medo de morrer sem ter passado pela experiência de ser mãe.
Graças a Deus o resultado da biopsia não revelou nada grave, nada que nos impedisse de seguir a diante, nada que colocasse minha vida em risco.
Enfim chegou o dia da nossa primeira consulta na Clinica Intro, lá fomos muito bem atendidos, nosso médico ouviu toda a nossa trajetória, nos explicou como funcionavam os tratamentos ali realizados e após analisar todos nossos exames, definiu-se então qual seria o tratamento adotado para nós. Agora o nosso tratamento tinha nome: FERTILIZAÇÃO IN VITRO – FIV.
Depois de diversas consultas, centenas de exames clínicos e laboratoriais, vídeo cirurgia pra analise interna do sistema reprodutor, finalmente fomos liberados pra iniciar as medicações. Em janeiro de 2019, após varias agulhadas no abdomem, até que enfim uma ultima agulhada para madurar os óvulos.
E mais um grande dia chegou, o dia de extrair os óvulos, meu Deus que benção, foram ao todo 20 foliculos, nós conseguimos superar mais uma etapa. Depois de realizada a analise destes folículos, foi realizada a junção dos óvulos viáveis com os espermatozóides. Diariamente eu era informada sobre a evolução , ao final do terceiro dia tínhamos 6 embriões de excelente qualidade, nossos bebês, já tinham múltiplas células.
Ainda em janeiro fizemos a transferência de 2 embriões para o meu útero. Não tenho como explicar nossa emoção alguns dias depois ao saber que tinha dado tudo certo, finalmente conseguimos nosso tão sonhado POSITIVO e foi lindo, foi o inicio da realização de um sonho de toda a vida e o melhor de tudo é que a ultrassom mostrou que os dois embriões haviam implantado, teríamos 2 bebês.
Mas quem disse que o positivo é o fim de uma batalha? Pra nós não foi. Algumas semanas depois acordei de madrugada pra fazer xixi e descobri que estava com sangramento, entramos em contato imediatamente com nossos médicos e após realizar novo exame de ultrassom, veio a triste noticia de um dos meus bebês já não estava comigo.
Meu Deus, que dor, que angustia, que desespero!!! Fiquei em repouso, medicação e cuidados redobrados até que chegou o dia de fazer um novo exame de ultrassom, 8 semanas de gestação e pra nosso desespero, nosso segundo bebê havia parado de evoluir.
Eu entrei em desespero, eu não havia sentido dores, não tive novo episódio de sangramento, mas meu bebê, não estava mais comigo. Como pode? Como Deus pôde permitir que isso acontecesse? Porque eu que queria tanto ter um filho, não podia, enquanto tantas mulheres abortam, jogam fora, doam, matam...? Porque eu?
Não da pra explicar quantas coisas passaram pela minha cabeça, enquanto eu chorava sem parar na sala de espera da clinica. Logo fomos atendidos pelo nosso médico, que foi muito solidário com a dor que sentíamos naquele momento e após nos acalmar um pouco, o dr nos disse que se meu organismo conseguisse eliminar o endométrio e limpar o útero sem a necessidade de uma curetagem, em 3 meses poderíamos tentar uma nova transferência.
Não houve a necessidade de curetagem, três longos meses se passaram, em meio a choros, decepção, dor, mais um despreparo financeiro para uma nova transferência, mas tudo o que eu pensava era em não desistir, nós ainda tínhamos 4 embriões no laboratório da clinica, nós tínhamos que tentar dinovo.
E assim foi, Deus foi tão maravilhoso que nos abriu as portas pra uma nova tentativa e afinal do terceiro mês de espera, iniciamos a preparação do útero pra receber os novos moradores. Eu não vou mentir, emocionalmente foi muito difícil me preparar pra recomeçar, mas meu coração gritava por esta nova tentativa.
Chegou então a data e novamente 2 embriões foram transferidos. Sete dias depois eu agüentei de ansiedade e fiz um teste de farmácia, POSITIVO. Não acreditando muito no resultado deste teste, pois ainda era cedo pra ter HCG na minha corrente sanguínea, no dia seguinte fiz um exame de sangue: REAGENTE.
A gente havia conseguido dinovo! Na data solicitada pelo médico fiz o exame quantitativo e o beta estava altíssimo, quatro vezes maior do que na primeira gestação e logo meu coração me disse que eram dois bebês, meus dois pequenos haviam conseguido implantar, dias depois com exame de ultrassom confirmamos nossa gravidez gemelar.
Algumas semanas se passaram, e o medo me consumia. Eu tinha pânico de ir ao banheiro, medo de ver sangue, e mais uma vez isso aconteceu, sangue, muito sangue e o meu coração parecia que ia sair do peito de tanta dor, de tanto desespero. Enquanto o dia ia amanhecendo, o sangramento se tornava cada vez mais intenso. Ao amanhecer, o exame mostrou que mais uma vez um dos meus bebês tinha me deixado.
Não dava pra entender, minha saúde estava em pleno estado, eu estava fazendo uso certinho da medicação que a FIV requer até o final do primeiro trimestre. Porque tudo estava se repetindo? Porque o Senhor permitiu que os dois embriões se implantassem, se não ia me permitir ficar com eles?
Em meio a muita tristeza, tentei me acalmar o máximo possível, pois eu ainda tinha um bebê e precisava zelar do bem estar dele. A partir de então começou o meu repouso absoluto pra que nada pudesse ferir meu pequeno, fiquei quase 70 dias na cama, saía dela uma vez na semana pra fazer ultrassom e meu bebê estava lá, crescendo, se desenvolvendo.
Com 12 semanas e 4 dias de gestação, uma segunda feira de manhã, já ansiosa pra saber o sexo, fui ao laboratório coletar sangue pra sexagem fetal, sai do laboratório pedindo pro tempo passar rápido e pegarmos o resultado no final da semana. Mas nosso bebê decidiu que naquele dia, ia nos mostrar que as coisas nem sempre seriam como nós desejávamos, e na noite do mesmo dia ao fazer a ultrassom morfológica, descobrimos o sexo do nosso bebê. Uma menina! Uma menina que ficou uns 10 minutos de bumbum pra cima e perninhas abertas pra tia Paula não ter dúvidas sobre o sexo dela. Aquela menina que pedimos pra Deus desde o inicio do nosso relacionamento. A nossa Isabelle!
Que felicidade! Eu não conseguia dormir de tanta alegria, ficava vendo e revendo as imagens do ultrassom, os vídeos, ouvindo o coraçãozinho dela. Era tanto amor, tanta gratidão.
O tempo foi passando, nossa filha foi crescendo, forte, saudável, tudo correndo bem, graças a Deus. Quartinho pintado, enxoval bem adiantado, ansiedade a mil e que janeiro de 2020 chegue logo. A cada chute, cada cambalhota dela na minha barriga, me fazia sorrir, era como se ela estivesse me dizendo “Eu estou aqui, eu estou bem”.
Meu esposo já dizia pra ela, “Você não vai abaixar a cabeça pra ninguém filha, vamos te ensinar a ser independente, a dar valor ao que realmente tem valor”. Cantamos musiquinha de bom dia pra ela, todos os dias. Ela sempre soube o quanto era amada, desejada, esperada.
A barriga estava crescendo e junto com ela o nosso amor, a nossa ansiedade de ter nossa filha nos braços, do primeiro olhar, o primeiro toque, a vontade de ouvir o chorinho dela.
No dia 03 de outubro eu fiz a ultra morfológica do segundo trimestre, estava tudo bem, minha bebê estava, grande, gordinha, com todos os órgãos formados, perfeita, só sai de lá um pouco frustrada porque embora o dr tivesse insistido e fazer uma imagem 3D do rostinho dela, ela não deixou, colocava as mãos e os pés na frente, mais uma vez mostrando ter vontade própria.
No dia 06, três dias após a ultrassom, começou um sangramento e eu corri para o Hospital São Luiz em Cáceres, lá fizemos um monte de exames e com a gestação estava tudo normal, colo do útero fechado e com uma espessura muito boa, o sangramento estava vindo do lado de fora do colo. Fiquei no hospital e observação e fui liberada pra voltar pra casa no dia seguinte.
Dia 08 repetimos exame de ultrassom e nossa pequena continuava bem, colo do útero fechado. Dia 09 fomos pra Cuiabá na consulta com minha obstetra, ela me examinou, fez exames clínicos e confirmou o que o colo estava fechado e que algum vasinho do lado de fora do colo poderia ter rompido devido ao crescimento do útero. Disse que esse tipo de sangramento costuma parar com 15 dias, eu não estava com dor nem nada, me pediu repouso e uso de utrogestan até o sangramento parar.
No dia 10 comecei a sentir um desconforto que começou a ficar incômodo mais pro fim do dia, a noite a barriga começou a ficar durinha, fiquei muito assustada porque me parecia ser contração, corremos para o hospital depois de falar com nossa médica em Mirassol, chagando lá o dr que estava no plantão fez minha triagem pra Cáceres e mais uma vez fomos para o São Luis.
Chegamos no hospital pouco antes da meia-noite de 10/10 para 11/10 e aguardamos por quase 01 hora para a triagem. Ao dar entrada no hospital, enquanto aguardávamos o primeiro atendimento, meu esposo se dirigiu até a recepção e informou que, embora eu tivesse chegado por encaminhamento de Hospital Público, o atendimento se daria por meio do plano de Saúde Unimed.
Depois de algum tempo sentada, com dor, fui conduzida para uma sala destinada a "avaliação de risco (dizeres da porta)", fomos atendidos por dois estudantes de medicina (internos) muito jovens e que demonstraram não saber o que estavam fazendo. Eles se atrapalhavam em folhear as folhas sobre a mesa, se distraiam preenchendo dados no computador, até que apareceu uma médica, professora deles.
Durante todo o atendimento, mais falavam entre eles do que conosco. Erraram ao fazer os cálculos da minha gestação de acordo com os dados da minha caderneta de gestante, me perguntaram sobre o fluxo do sangramento umas 5 vezes, sem prestarem atenção na resposta e sem se atentarem para o fato das contrações.
A Dra “responsável” pelo atendimento me fez um toque e disse que o útero estava entreaberto, que o sangramento era pouco e ainda disse pra um dos alunos que se ele quisesse fazer o toque também, ficasse a vontade, como se eu fosse um boneco, objeto de estudo, e que de forma irresponsável estava me sujeitando a um novo exame de toque que querendo ou não estimularia ainda mais as contrações. Eu, rapidamente me sentei pra não permitir esse novo exame oferecido ao interno.
Somente no momento em que a Dra, viu no sistema que eu estava ali sendo atendida pelo plano de saúde e não pelo SUS, é que passou a conversar conosco, inibindo os internos. De qualquer forma, ela disse que ia me medicar para dor e me liberar pra voltar pra casa (isso já eram quase 02 da manhã da madrugada de 10/10 para 11/10), caso a dorpersistisse, que voltássemos no outro dia.
Meu esposo disse pra ela, que voltar pra casa no estado em que eu estava, não era opção. Ela respondeu que "Só porque vocês querem, vou internar ela"! Como se qualquer pessoa quisesse internar um familiar ou ficar internada por vontade e não por necessidade.
Quero aqui esclarecer, que compreendo que assim como em minha profissão e na de meu esposo, todos os estudantes, independente da área em que estudam, em algum momento vão precisar passar pela fase prática, estágios e no caso dos médicos internatos. Só acredito que quando se trata da vida de seres humanos, deve-se ter um pouco mais de responsabilidade com o atendimento e a supervisão destes por parte do profissional responsável pelos internos.
Me chamou a atenção também, o fato de haver diferenciação na maneira em como o atendimento foi conduzido enquanto a médica acreditou que eu era um atendimento pelo SUS e a forma como o atendimento mudou ao descobrir que era plano de saúde. Como se a vida do paciente, seja ele, oriundo de um atendimento público, conveniado ou particular, não tivesse o mesmo valor.
Voltando a minha historia, mesmo eu alegando contrações, não foi colocado em mim o equipamento para verificar se eram ou não contrações o que estava sentindo, nem mesmo o coração da milha filha eles tentaram ouvir. Aguardei ainda sentada, no corredor por horas, enquanto liberavam o quarto para internação, o que aconteceu somente perto das 04h00 da manhã, e as dores, só aumentavam.
Na tarde do dia 11/10 fizemos uma ultrassom e a Isa estava bem. No decorrer do dia fui medicada com Buscopan, o que amenizou as dores. As contratações reduziram um pouco pois o Buscopan promove certo relaxamento muscular, mas não cessaram por completo, pois não fui medicada com remédios que pudessem inibir as contratações.
No início da noite, recebi a visita da minha amiga e médica de Mirassol, enquanto conversávamos, precisei ir ao banheiro, pois senti que o fluxo do sangramento estava aumentando, ao me levantar da cama, todo o trajeto da cama até o banheiro ficou sujo daquele sangue aguado. Chegando ao banheiro percebi que não era somente sangue, era líquido. Minha bolsa havia se rompido.
Pedimos imediatamente a presença da obstetra de plantão e antes dela chegar ao quarto, tive uma segunda perda de quantidade considerável de líquido. Que desespero, que medo, eu não sabia como estava a minha filha. Duas obstetras vieram me ver e disseram que precisa fazer nova ultrassom, mas o ultrassonografista não estava no hospital e já que no dia seguinte era feriado não sabiam se ele viria, tão pouco no outro dia por ser domingo. Então possivelmente a ultrassom seria realizada somente 2 dias depois.
O desespero tomou conta, pois a única forma de saber quanto líquido havia perdido e como estava a minha filha, era esse exame e não tinha data certa para acontecer. Meu esposo questionou se nossa amiga poderia realizar a ultrassom, por ser ultrassonografista e nos disseram que não, pois a máquina não era do hospital e sim terceirizada.
Uma das médicas me disse que “se eu fosse você, iria pra Cuiabá” depois de muitas discussões sobre meu estado e a melhor decisão que deveria ser tomada, decidimos que o melhor realmente era ir pra capital. Conseguimos que o município liberasse a ambulância, entrei contato com minha obstetra, organizamos tudo e o hospital resolveu não liberar minha transferência.
Não dava pra entender, a médica me disse que o melhor era ir pra Cuiabá, pois lá eu conseguiria ser atendido e realizar os exames necessários assim que chegasse e depois de tudo organizado, simplesmente negaram me liberar, sugerindo que deveríamos nós evadir do hospital por conta própria, para que não fossem responsabilizados se algo grave me acontecesse.
Se fosse outras condições, não pensaria duas vezes, fugiria daquele lugar em busca de ajuda pra minha filha. Mas a ambulância não poderia me levar sem a autorização do hospital e eu não podia mais me levantar, deveria fazer a viagem deitada, medicada durante o trajeto e acompanhada por um profissional.
Fomos colocados em uma situação da qual não conseguimos fugir. As discussões pra tentar encontrar uma solução duraram tantas horas e meu estado foi se agravando de tal forma que já não poderia mais, ainda que conseguisse a bendita autorização, viajar, pois poderia entrar em trabalho de parto no trajeto, ter uma hemorragia e morrer no caminho.
Só nos restou continuar ali, em meio a incertezas e pedir a Deus que protegesse nossa filha. Assim passamos mais uma noite em claro! Em repouso absoluto, começaram a ministrar soro e mais soro pra tentar juntar líquido aos poucos, os batimentos cardíacos da nossa pequena começou a ser monitorado com mais frequência e ela estava lá, firme e forte chutando a barriga da mamãe, me dizendo que estava bem.
No dia 12, já no fim da tarde, o ultrassonografista apareceu e o exame constatou perda de aproximadamente 90% do líquido aminiótico e apesar disso, nossa pequena estava bem.
Assim passamos então a fazer ultrassom dia sim, dia não, exames de sangue e urina todos os dias pra verificar o surgimento de infecção devido ao rompimento da bolsa. Logo no primeiro dia após o rompimento, já tive infecção de urina. A médica nos explicou que ia continuar com o Buscopan pra amenizar dores, soro pra hidratar e antibióticos, mas que não poderia ministrar medicação pra evitar contrações devido a possibilidade de infecção grave, não poderiam segurar minha bebê e colocar minha vida em risco.
Eu entendi o que ela estava explicando naquele momento, mas não entendo até agora, porque não me deram medicação pra contrações antes da bolsa romper, porque esperaram a situação se agravar tanto a ponto de colocar a vida da minha filha e a minha em risco.
Com o uso dos antibióticos eu comecei a vomitar muito, o que me desidratava ao mesmo tempo que perdia o pouco líquido que ia juntando aos poucos, devido ao esforço para vômito. A cada troca de plantão, trocavam minha medicação para náuseas e na maioria das vezes a medicação que me davam não era suficiente pra interromper os vômitos.
Me mantiveram por mais 4 dias me medicando somente com Buscopan, soro, antibióticos, remédios pra náusea e durante esses 4 dias, minha princesa lutou muito, o coração dela não parou, ela continuou mexendo, ela foi guerreira o tempo todo.
Na terça-feira, dia 15/10, ficamos o dia todo pedindo pra que um médico fosse me ver, porque, assim que demos entrada no hospital, uma médica nos orientou que naquela data tomasse injeção de corticóide para madurar os pulmões da nossa bebê, então queríamos conversar sobre isso com o médico daquele plantão e nas dezenas de vezes que meu esposo se dirigiu ao posto de enfermagem pra solicitarem a presença do médico, só nos respondiam que o médico já estava vindo e nada dele aparecer.
Na tarde daquele mesmo dia eu comecei a sentir dor, que no fim do dia foi ficando mais intensa e a equipe que estava no plantão não fez nada, disseram que já tinham me dado Buscopan e que tinha que aguardar fazer efeito e o médico nada de aparecer.
As dores foram aumentando com o passar das horas, contrações e mais contrações e nada do médico aparecer. Eu gritei de dor a madrugada toda, enquanto as poucas vezes que a enfermeira atendia o pedido da minha mãe pra ir me ver, dizia que era só uma cólica e não contração. E o médico, aquele que estávamos chamando desde o início da tarde da terça feira, nada dele aparecer. O coração da minha pequena continuava batendo!
Ela continuava lutando! Sendo forte!
Quando dei entrada no hospital, levei comigo todos os exames da minha gestação. Minha filha sempre foi um bebê muito ativo, comecei a sentir os movimentos dela já com 12 semanas de gravidez e ela amava brincar com o cordão umbilical. Até que conseguiu dar uma volta do cordão ao redor do pescoço. O que não prejudicou ela em nada, pois estava bem folgado. Só não poderia nascer de parto normal.
Ali em meio aquela dor, tudo o que eu dizia, tudo o que eu pedia, tudo que eu implorava, era que me levassem pro centro cirúrgico, que tirassem a minha filha, que não permitissem que ela nascesse de parto normal. Aquela enfermeira não me deu atenção, me deixou aos gritos de dor durante toda a madrugada.
Eu vi o inferno naquela noite!
As 07h00 manhã do dia 16/10, quando trocaram a equipe do plantão, minha mãe chamou e veio toda a equipe de enfermagem, a enfermeira me disse pra eu me acalmar que iam me levar pro centro cirúrgico, mas não deu tempo.
Minha filha nasceu no quarto, rodeada de enfermeiros, sem a presença de nenhum obstetra, de nenhum pediatra e sem vida, porque aquela volta do cordão, virou um nó e interrompeu a vida da minha Isabelle durante o parto.
A médica que assumiu o plantão naquela manhã, foi prontamente me atender, quando chamada, mas já era tarde. A única coisa que ela chegou a tempo de fazer foi retirar a placenta.
Por mais que as chances de sobrevivência de um bebê de 6 meses sejam pequenas, a minha filha tinha o direito de continuar lutando. Eu fui negligenciada por mais de 17 horas, eu implorei pra fazerem meu parto durante toda uma madrugada. Só eu poderia saber a intensidade das dores que estava sentindo.
Não cabia a uma enfermeira decidir se eu estava ou não em trabalho de parto. Não foi humana a forma que me trataram ali e o médico nem foi me ver. Mataram a minha filha! Aquela filha que eu desejei, que eu sonhei por toda uma vida.
E ela lutou até o último minuto!
Não me deixaram sair de lá e também não fizeram nada pra salvar a vida dela.
Eles mataram a nossa filha!
Enquanto meu esposo estava ao meu lado, chorando a perda de nossa princesa, um funcionário do hospital o chamou pra dizer a ele que tínhamos que decidir se iríamos providenciar o sepultamento da nossa menina, ou se o hospital poderia chamar uma empresa especializada para fazer o “DESCARTE”.
Descarte? Como se estivesse falando de uma coisa qualquer e não de um ser humano. Nenhum pai deveria ouvir isso, nenhum pai deveria se dirigir a um cartório pra registrar o óbito de um filho, ainda mais no dia em que deveria estar registrando seu nascimento.
Foi tudo, a todo o tempo, desumano.
Nossa pequena nasceu com 6 meses, não veio para os nossos braços com vida e foi sepultada no mesmo dia, enquanto eu ainda estava na cama daquele hospital, onde vivi o maior horror da minha vida.
E ela era linda, tão perfeitinha, do jeito que sempre sonhamos. Foi arrancada de nós a oportunidade de olhar nos olhos da nossa filha, de ver ela crescer, de ouvir o som da voz dela, de vivermos anos felizes ao lado dela, até que chegasse o momento em que ela nos sepultaria e não o contrário.
E o quartinho dela esta lá, cor de rosa, o guarda roupas esta cheio de roupinhas que ela nunca vai usar, meus seios derramando leite que nunca vai alimentar minha filha, mas que me lembra a todo instante que não pude amamentá-la.
Após todo o ocorrido ainda fomos obrigados a ouvir de médicos, enfermeiros e psicóloga do Hospital São Luis da cidade de Cáceres, “vocês ainda são novos”, “não desistam”, “ainda podem ter filhos”, “não foi culpa de vocês, nem de ninguém”, “estamos aqui para o que precisarem”, “foi a vontade de Deus”...
Como se pudesse ser dito a uma mãe ou pai, “não se preocupe, se seu filho morrer, vocês podem ter outros”. Quando é que as pessoas vão entender que uma vida não substitui a outra? Um filho, definitivamente não substitui outro. Mesmo que um dia eu crie coragem de engravidar novamente, nunca vai ser a Isabelle.
É serio que agora, depois de tudo o que não fizeram por nós, estão ali para o que precisarmos? Porque não estavam, quando gritei? Porque não ouviram, quando implorei? Porque não fizeram nada, quando realmente podiam fazer? Tem certeza que não foi culpa de ninguém? E como pode ter sido a vontade de Deus? Deus manteve a nossa filha viva sem liquido aminiótico por 4 dias. Deus cuidou dela, dando tempo para que os médicos fizessem alguma coisa pra salvar ela. Não foi a vontade de Deus. Foi a maldade humana.
Por muito tempo, nós tivemos vergonha de dizer que enfrentamos problemas pra engravidar, e mesmo que alguns amigos mais próximos e familiares tenham ficado sabendo, sempre nos causou constrangimento, essa situação.
Resolvi contar aqui toda a nossa história, porque entendemos que não existe motivo nenhum pra nos envergonhar. Não nos foi permitido engravidar de forma natural, mas Deus colocou em nosso caminho, profissionais capacitados pra nos ajudar. Pessoas que ao longo de toda a trajetória, nos atenderam com carinho, com amor, com respeito e compromisso.
Durante o tratamento e a gestação, de secretárias aos médicos da Clinica Intro, todos foram humanos conosco. Dra Paula em Mirassol foi o nosso anjo da guarda.
Infelizmente nossa no Hospital São Luis, nós não encontramos esse mesmo amor, esse mesmo comprometimento, essa mesma humanização no tratamento para com os pacientes. Em todas as áreas os profissionais estão se banalizando, trabalhando somente por dinheiro, mas na área da saúde não é lugar de se ter pessoas que trabalhem apenas por dinheiro, é necessário ter pessoas que amam o que fazem, que sejam resilientes.
Não vou ser injusta aqui e dizer que todos os que me atenderam ali, foram negligentes, porque eu estaria mentindo. Fui tratada com muito carinho e profissionalismo por alguns médicos e enfermeiras. Mas no momento em que mais precisei, infelizmente não eram estes que estavam lá pra me ajudar.
Fizemos uma denuncia na ouvidoria do hospital, fizemos uma denuncia no Ministério Público, para que as responsabilidades sejam apuradas e os responsáveis arquem com as conseqüências, não em nome de nossa bebê, porque nada vai trazer a Isabelle de volta, mas em nome de outras gestantes que possam vir a frequentar o Hospital São Luis, em Cáceres, para que nenhuma delas passe ali, pelo que eu passei. Para que nenhuma outra Isabelle perca a vida depois de lutar tanto pra sobreviver, que sonhos não sejam “descartados”, por pessoas negligentes.
E é por tudo isso, que estou aqui contando toda essa história. Quantas e quantas pessoas foram tratadas com violência, com descaso, com negligencia dentro de um hospital? Precisamos contar, precisamos divulgar, é necessário que se dê um basta em tudo isso. Vidas estão sendo perdidas diariamente.
Meu nome é Fernanda Schiavo, tenho 29 anos, sou casada com Wesley Ferreira, mãe da pequena Isabelle, que nasceu morta por negligencia de funcionários do Hospital São Luis da cidade de Cáceres – MT.
E você? Quem é? Qual a sua história?

Relato do pai da Isa, o senhor Wesley Ferreira

Sou casado a sete anos com Fernanda Cristina Schiavo Ferreira. Há pouco mais de dois anos, depois de várias tentativas, descobrimos problemas de infertilidade, que tornava quase impossível uma gravidez natural. Com muito esforço, conseguimos reunir pouco mais de R$ 30 mil para procedimentos de Fertilização In Vitro (FIV). Antes do procedimento em si, ela precisou passar por duas cirurgias preparatórias e realizar mais de cem exames laboratoriais, todos com o propósito de afastar qualquer anomalia. Finalmente, no final de 2018, ela realizou a inseminação, tendo confirmado a gestação de gêmeos poucas semanas depois. Em virtude do tratamento, ela continuou tendo que tomar medicamentos fortes e a se auto aplicar injeções na barriga, o que lhe causava muito sofrimento. Mas tudo fazia parte do tratamento, então, suportávamos. Esta gravidez foi interrompida de forma natural, por aborto espontâneo, antes de se completar dois meses de gestação. Em razão da perda dos gêmeos, ela teve crises emocionais, problemas associados ao risco de depressão e foram meses dificílimos. Por questões médicas, aguardamos três meses para uma nova tentativa e, em Maio de 2019, ela realizou nova inseminação, tendo de se submeter, novamente, a todos os procedimentos de exames e injeções da primeira tentativa. O resultado foi positivo e confirmamos nova gestação de gêmeos. Realizávamos
ultrassonografias quinzenais, frequência acima da média, para garantir que tudo estava correndo bem. Durante os três primeiros meses, em virtude de causas desconhecidas, um dos bebês não evoluiu e ela sofreu um novo aborto espontâneo, que a obrigou a ficar de repouso absoluto em casa. Depois desse episódio, a gravidez (agora única) evoluiu, chegamos ao fim do primeiro trimeste, descobrimos se tratar
de uma menina e seguimos com todo o acompanhamento para garantir uma gestação saudável. A gravidez seguiu sem intercorrências até a 22ª semana, quando ela realizou o Ultrassom obrigatório de segundo trimestre, que demonstrou estar tudo bem: órgãos da bebê formados, corpo já desenvolvido e apenas ganhando peso para o nascimento, previsto para final de Janeiro a inicio de Fevereiro de 2020. Durante a 23ª semana, minha esposa começou a sofrer por sangramentos. Preocupados, fomos a avaliação médica em Mirassol D'Oeste (cidade de residência), que atestou estar tudo bem com a bebê e minha esposa. Em razão do sangramento continuar, na manhã de 06 de Outubro de 2019 (Domingo), por falta de unidade hospitalar adequada em Mirassol D'Oeste, nos dirigimos até o Hospital São Luis, em Cáceres, que a avaliaram, a internaram, aplicaram remédio para dor e a liberaram na segunda-feira (07/10/19). Como as dores eram frequentes, mesmo em alta hospitalar, submetemos minha esposa a novos exames em Mirassol, no dia 08/10/2019 e, diante de todos os exames demonstrarem não haver problema algum (o que não fazia sentido), nos dirigimos para Cuiabá na quarta-feira (09/10/2019) para exames mais completos diretamente na clínica responsável pela FIV, a Clínica Intro. Lá estando, novos exames foram feitos, constatando que tudo estava bem com minha esposa e com a bebê, de modo que o sangramento tinha origem do lado externo do útero, por rompimentos de pequenos vasos sanguíneos, situação natural devido ao crescimento da barriga. Retornamos para Mirassol D'Oeste na quarta a noite (09/10/2019). Na quinta (10/10/2019) por volta da hora do almoço, minha esposa voltou a ter sangramento, agora acompanhado de contrações e fortes dores. Em contato com a médica local, nos orientou a manter o repouso e passou medicação para dor. Com a continuidade das contrações e aumento da dor, na noite de quinta-feira (10/10), nos dirigimos até o Hospital Municipal Samuel Greve, única opção disponível e, lá estando, após uma avaliação preliminar, o médico plantonista entendeu por bem solicitar a transferência imediata de minha esposa para Cáceres, no Hospital São Luis, o mesmo em que ela havia sido internada no fim de semana anterior. Diante do quadro, ela foi transferida por ambulância eu os acompanhei em carro próprio. Chegamos no hospital pouco antes da meia-noite de 10/10 para 11/10 e aguardamos por quase 01 hora para a triagem. Ao dar entrada no hospital, enquanto aguardávamos o primeiro atendimento, me dirigi a recepção e informei que, embora ela tivesse chegado por encaminhamento de Hospital Público, o atendimento se daria por meio do plano de Saúde Unimed. Pouco tempo depois, quando chamaram minha esposa para uma sala destinada a "avaliação de risco (dizeres da porta)", fomos atendidos por dois estudantes de medicina (internos) muito jovens e que demonstraram não saber o que estavam fazendo. Eles se atrapalhavam em folhear as folhas sobre a mesa, se distraiam preenchendo dados no computador e, nas poucas vezes em que uma médica entrava na sala (possivelmente a supervisora deles), aproveitam para esclarecer dúvidas. As duas dúvidas que esclareceram enquanto minha esposa aguardava sentada por atendimento era: o que significa reagente neste exame? E, a última, que nos causou preocupação, foi: Professora, extenso se escreve com S ou X? Ficamos alarmados com a situação e pedimos que a tal professora assumisse o atendimento. Ela fez uma rápida avaliação, disse que não era nada demais, que passaria um remédio para dor e que nos liberaria (isso já eram quase 02 da manhã da madrugada de 10/10 para 11/10) para ir pra casa e, caso a dor persistisse, que voltássemos no outro dia. Discuti com a professora/médica e disse para ela que o quadro era grave e que sair dali não era uma opção. Ela respondeu que "Só porque vocês querem, vou internar ela"! Como se qualquer pessoa quissesse internar um familiar por vontade e não por necessidade. Ela saiu da sala e providenciou a papelada para a internação. O quarto de internação (um quarto privativo com leito individual) foi liberado somente perto das 04h00 (quatro da manhã) e minha esposa permaneceu este tempo todo esperando sentada em um corredor. Depois de internada, tudo o que ela recebeu foi medicamentos para dor pois, segundo os plantonistas, não havia nada que pudesse ser feito a não ser aliviar a dor. A medicação para dor e hidratação por soro continuou pelo restante da madrugada de quinta para sexta, sexta e sábado o dia inteiro e, no início da noite de sábado (12/10/19), entre 20h e 21h, mesmo em repouso absoluto dentro da unidade hospitalar, ela teve perda de líquido aminiótico, o que colocou dúvidas sobre a sobrevivência da bebê. A equipe de enfermagem de plantão nos disse que era necessário um exame de ultrassom na noite de sábado mesmo, para determinar se a bebê ainda sobrevivia. Nos explicaram que o hospital dispunha do exame, mas o profissional responsável pelo exame vinha até a unidade uma vez ao dia, em horário não determinado e que precisávamos aguardar, pelo menos, até a tarde de domingo (13/10/19) para realizar o exame de urgência e que, até lá, tudo o que se poderia fazer era ministrar remédio para dor e soro para hidratação. Diante do quadro, por recomendação de parte da equipe de enfermagem, tentamos realizar a transferência de minha esposa para um hospital de Cuiabá, onde a equipe da Clínica Intro havia disponibilizado uma equipe para realizar o pronto atendimento, já cientes do caso. Entramos em contato com o município, solicitamos uma ambulância, a ambulância ficou a disposição aguardando apenas a documentação necessária para a transferência dela na madrugada de sábado (12/10) para domingo (13/10). Entretanto, o hospital não autorizou a transferência, alegando que só poderiam autorizar se não houvesse equipamento de Ultrassom na unidade hospitalar. De fato, havia, mas só estaria disponível no domingo a tarde. Nossa médica que acompanha a gestação em Mirassol D'Oeste, havia chegado até o hospital para uma visita (por ser amiga da família de longa data) e, durante esta situação de crise, se prontificou a realizar (ela mesma) o exame de ultrassom utilizando-se do equipamento do hospital, já que o profissional do hospital não estava disponível. Isto nos foi recusado alegando questões administrativas e que a máquina de ultrassom do hospital era tercerizada. Houve sensível piora no quadro de minha esposa em questão de horas na madrugada de sábado para domingo, de modo que tanto a equipe de plantão, quanto nossa médica de Mirassol nos orientou que havia se tornado impossível realizar a transferência, pois havia o risco considerável de que minha esposa entrasse em trabalho de parto durante o trajeto de Cáceres a Cuiabá e que, diante do quadro, era provável a ocorrência de hemorragias que, se não controladas rapidamente, colocariam em risco a vida tanto de minha esposa quanto de nossa bebê. Fiquei de mãos atadas! Não podia mais, mesmo com ambulância de prontidão, realizar a transferência em virtude da piora do quadro e fui obrigado a esperar até domingo a tarde para saber, por meio de ultrassom realizado no próprio hospital, se nossa bebê ainda estava viva. Quando realizaram este exame, por volta das 16h de domingo, constatou-se perda significativa de líquido aminiótico, mas que nossa bebê estava bem. Adotou-se a partir dali a conduta de ouvir os batimentos cardíacos da bebê várias vezes por dia, para acompanhar o estado de saúde dela; realizar ultrassom diário e exames de sangue a cada dois dias para acompanhar um possível quadro de infecção. Os batimentos cardíacos permaneceram dentro da faixa da normalidade durante todo o tempo e esta conduta foi mantida, sem alterações, nos dias 13, 14 e 15 de Outubro, pois, segundo a equipe de enfermagem, a situação exigia apenas "espera" da evolução do quadro. No dia 15 de Outubro, por volta das 15h, minha esposa começou a piorar, com novo sangramento, fortes contrações e dores crescentes. Eu estava no hospital neste momento e chamei a equipe médica, através do posto de enfermagem. A equipe de plantão me disse que havia chamado o médico e que ele chegaria em instantes. Com a demora da chegada, comecei a ir até o posto de enfermagem a cada 10 ou 15 minutos, de forma insistente, até as 19h, quando precisei deixar o hospital e a resposta era sempre a mesma: espere que o médico já está vindo! Minha esposa continuou internada, acompanhada da mãe dela e eu retornei à Mirassol por questões de trabalho (sou advogado e haviam prazos processuais que eu precisava respeitar, mesmo sendo dono do escritório). Soube que depois de minha saída, as 19h de 15/10/19, minha sogra passou a cobrar no posto de enfermagem a chegada do médico e isso perdurou durante toda a noite, seguindo-se sempre a mesma resposta: aguarde que o médico está vindo! Pouco depois da meia noite do dia 15/10 para o dia 16/10, minha sogra, já desesperada, promoveu um escândalo no corredor do hospital, literalmente gritando pela presença do médico que "estava vindo" desde as 15h e não foi atendida. Uma das enfermeiras foi até o quarto e disse que a única coisa que poderia ser feito era passar remédio para dor, já que não havia outro medicamento prescrito. Perto das 02h00 (duas da madrugada) de terça (15/10) para quarta (16/10), minha esposa entrou em trabalho de parto prematuro e continou sozinha no quarto, acompanhada apenas pela mãe, até quase as 06 da manhã, quando uma equipe de enfermagem se deslocou para o quarto e, sozinhas, sem a presença de qualquer médico, seja obstetra ou pediatra, acompanharam o parto de minha esposa, que sofreu além do necessário, com dores extremas. Entregamos, quando na entrada do hospital, uma pasta contendo todo o histórico de exames anteriores e o hospital estava ciente do fato de que a nossa bebê encontrava-se em
posição que não permitia a realização de parto normal. Este fato se confirmou pois, segundo as enfermeiras, a bebê nasceu de costas, de modo que a primeira parte do corpinho dela a sair foi o bumbum e não a cabeça, como deveria ser. Estes traumas, aliados a problemas relacionados a perda do líquido aminiótico fizeram com que ela não sobrevivesse ao parto normal, tanto pela forma como nasceu como pela pouca quantidade de líquido aminiótico. Somente às 07h do dia 16/10/19, quando ocorreu a troca da equipe de plantão é que acionaram a médica que havia acabado de começar a trabalhar e ela, por volta das 07h10, compareceu no quarto onde minha esposa estava internada e, ao chegar, a bebê já havia nascido (natimorta). Pela forma como tudo ocorreu, minha esposa continuou sangrando por algum tempo, precisando ser medicada para forçar a remoção da placenta, que foi removida somente quando já eram 10h de 16/10/19. Assim que eu soube do que estava ocorrendo, por volta das 05h30m de 16/10, me dirigi até Cáceres mas cheguei quando mais nada pudia ser feito. Então, tudo o que me restou foi decidir, por orientação do hospital, se queriam que a bebê fosse "descartada" (palavras deles) por uma empresa especializada ou se eu providenciaria o velório dela. Fiquei o restante da manhã mexendo com papelada relacionada ao registro da certidão de natimorto no Cartório Civil de Cáceres para providenciar o enterro. Tão logo terminei isso, procurei a Ouvidoria do hospital, através do servidor Washigton, que me pediu para gravar minha manifestação, com a finalidade de encaminhar para a equipe dos diretores do hospital. Permiti. Fiz a reclamação. A partir daí, começaram a literalmente bajular a mim e minha esposa, como se isso fosse amenizar a nossa perda. Deixaram a médica de plantão, enfermeiros de prontidão, até psicólogo que nem solicitamos apareceu. Solicitei no administrativo cópia do prontuário, que disseram demorar até 10 dias para ficar pronto e que, até hoje, ainda não me foi entregue. Não nos deram explicações alguma: porque o médico não apareceu? Porque o parto dela foi normal, mesmo com orientação contrária nos exames? Porque ela não foi levada para uma sala de cirurgia ou outro ambiente que não fosse um quarto simples, para que pudesse, ao menos, ter um acompanhamento melhor? Sem respostas! Até agora, não sabemos como uma gravidez que até quarta-feira (09/10) estava completamente saudável, segundo laudos de médicos de Cuiabá e Mirassol D'Oeste, terminou dessa forma trágica, com a perda de uma bebê que não tinha nenhum problema de saúde anterior, conforme apontado pelo exame de Ultrassonografia de 2º Trimeste, realizado na semana anterior a internação. Quando ela tinha condições de ser transferida para Cuiabá, me negaram isso, mesmo eu providenciando o necessário; quando eu forneci meios levando uma profissional habilitada para realizar o Ultrassom em uma máquina que estava disponível, nos negaram também; a piora do quadro, diante da administração de remédios apenas para dor, me fez ficar na terrível situação de ter de escolher entre: pôr a vida da minha esposa e filha em riscos na estrada ou simplesmente aguardar, nas dependência do Hospital São Luis, a "evolução" (seja lá o que isso signifique) do quadro, sem que nenhuma providência fosse tomada além de remédios para dor (Buscopan, encontrado em qualquer farmácia). Alguém, definitivamente, errou aqui. Mesmo sendo profissional do direito, inscrito na OAB/MT, não tenho condições de conduzir isso e peço, não em nome de minha bebê, que ninguém trará de volta, mas em nome de outras gestantes que possam vir a frequentar o Hospital São Luis, em Cáceres, que uma providência seja tomada, que responsabilidades sejam apuradas e que haja, depois do devido processo legal, a punição dos responsáveis. Encaminho, em anexo, Certidão de Natimorto. Se solicitado, compareço junto com minha esposa na sede da Promotoria, para prestar mais esclarecimentos e entregar todos os exames relacionados à gestação, impossíveis de serem enviados por aqui, diante da quantidade. Por favor, não deixem este caso virar estatística!

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

Se você ou um familiar sofreram o crime de violência obstétrica, omissão de socorro ou negligência hospitalar, por favor, encaminhe seu relato para contato@isabellekids.com.br e tomaremos as providências necessárias para formalizar sua denúncia perante o Ministério Público Estadual, órgão responsável pela investigação. 

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