Sou casado a sete anos com Fernanda Cristina Schiavo Ferreira. Há pouco mais de dois anos, depois de várias tentativas, descobrimos problemas de infertilidade, que tornava quase impossível uma gravidez natural. Com muito esforço, conseguimos reunir pouco mais de R$ 30 mil para procedimentos de Fertilização In Vitro (FIV). Antes do procedimento em si, ela precisou passar por duas cirurgias preparatórias e realizar mais de cem exames laboratoriais, todos com o propósito de afastar qualquer anomalia. Finalmente, no final de 2018, ela realizou a inseminação, tendo confirmado a gestação de gêmeos poucas semanas depois. Em virtude do tratamento, ela continuou tendo que tomar medicamentos fortes e a se auto aplicar injeções na barriga, o que lhe causava muito sofrimento. Mas tudo fazia parte do tratamento, então, suportávamos. Esta gravidez foi interrompida de forma natural, por aborto espontâneo, antes de se completar dois meses de gestação. Em razão da perda dos gêmeos, ela teve crises emocionais, problemas associados ao risco de depressão e foram meses dificílimos. Por questões médicas, aguardamos três meses para uma nova tentativa e, em Maio de 2019, ela realizou nova inseminação, tendo de se submeter, novamente, a todos os procedimentos de exames e injeções da primeira tentativa. O resultado foi positivo e confirmamos nova gestação de gêmeos. Realizávamos
ultrassonografias quinzenais, frequência acima da média, para garantir que tudo estava correndo bem. Durante os três primeiros meses, em virtude de causas desconhecidas, um dos bebês não evoluiu e ela sofreu um novo aborto espontâneo, que a obrigou a ficar de repouso absoluto em casa. Depois desse episódio, a gravidez (agora única) evoluiu, chegamos ao fim do primeiro trimeste, descobrimos se tratar
de uma menina e seguimos com todo o acompanhamento para garantir uma gestação saudável. A gravidez seguiu sem intercorrências até a 22ª semana, quando ela realizou o Ultrassom obrigatório de segundo trimestre, que demonstrou estar tudo bem: órgãos da bebê formados, corpo já desenvolvido e apenas ganhando peso para o nascimento, previsto para final de Janeiro a inicio de Fevereiro de 2020. Durante a 23ª semana, minha esposa começou a sofrer por sangramentos. Preocupados, fomos a avaliação médica em Mirassol D'Oeste (cidade de residência), que atestou estar tudo bem com a bebê e minha esposa. Em razão do sangramento continuar, na manhã de 06 de Outubro de 2019 (Domingo), por falta de unidade hospitalar adequada em Mirassol D'Oeste, nos dirigimos até o Hospital São Luis, em Cáceres, que a avaliaram, a internaram, aplicaram remédio para dor e a liberaram na segunda-feira (07/10/19). Como as dores eram frequentes, mesmo em alta hospitalar, submetemos minha esposa a novos exames em Mirassol, no dia 08/10/2019 e, diante de todos os exames demonstrarem não haver problema algum (o que não fazia sentido), nos dirigimos para Cuiabá na quarta-feira (09/10/2019) para exames mais completos diretamente na clínica responsável pela FIV, a Clínica Intro. Lá estando, novos exames foram feitos, constatando que tudo estava bem com minha esposa e com a bebê, de modo que o sangramento tinha origem do lado externo do útero, por rompimentos de pequenos vasos sanguíneos, situação natural devido ao crescimento da barriga. Retornamos para Mirassol D'Oeste na quarta a noite (09/10/2019). Na quinta (10/10/2019) por volta da hora do almoço, minha esposa voltou a ter sangramento, agora acompanhado de contrações e fortes dores. Em contato com a médica local, nos orientou a manter o repouso e passou medicação para dor. Com a continuidade das contrações e aumento da dor, na noite de quinta-feira (10/10), nos dirigimos até o Hospital Municipal Samuel Greve, única opção disponível e, lá estando, após uma avaliação preliminar, o médico plantonista entendeu por bem solicitar a transferência imediata de minha esposa para Cáceres, no Hospital São Luis, o mesmo em que ela havia sido internada no fim de semana anterior. Diante do quadro, ela foi transferida por ambulância eu os acompanhei em carro próprio. Chegamos no hospital pouco antes da meia-noite de 10/10 para 11/10 e aguardamos por quase 01 hora para a triagem. Ao dar entrada no hospital, enquanto aguardávamos o primeiro atendimento, me dirigi a recepção e informei que, embora ela tivesse chegado por encaminhamento de Hospital Público, o atendimento se daria por meio do plano de Saúde Unimed. Pouco tempo depois, quando chamaram minha esposa para uma sala destinada a "avaliação de risco (dizeres da porta)", fomos atendidos por dois estudantes de medicina (internos) muito jovens e que demonstraram não saber o que estavam fazendo. Eles se atrapalhavam em folhear as folhas sobre a mesa, se distraiam preenchendo dados no computador e, nas poucas vezes em que uma médica entrava na sala (possivelmente a supervisora deles), aproveitam para esclarecer dúvidas. As duas dúvidas que esclareceram enquanto minha esposa aguardava sentada por atendimento era: o que significa reagente neste exame? E, a última, que nos causou preocupação, foi: Professora, extenso se escreve com S ou X? Ficamos alarmados com a situação e pedimos que a tal professora assumisse o atendimento. Ela fez uma rápida avaliação, disse que não era nada demais, que passaria um remédio para dor e que nos liberaria (isso já eram quase 02 da manhã da madrugada de 10/10 para 11/10) para ir pra casa e, caso a dor persistisse, que voltássemos no outro dia. Discuti com a professora/médica e disse para ela que o quadro era grave e que sair dali não era uma opção. Ela respondeu que "Só porque vocês querem, vou internar ela"! Como se qualquer pessoa quissesse internar um familiar por vontade e não por necessidade. Ela saiu da sala e providenciou a papelada para a internação. O quarto de internação (um quarto privativo com leito individual) foi liberado somente perto das 04h00 (quatro da manhã) e minha esposa permaneceu este tempo todo esperando sentada em um corredor. Depois de internada, tudo o que ela recebeu foi medicamentos para dor pois, segundo os plantonistas, não havia nada que pudesse ser feito a não ser aliviar a dor. A medicação para dor e hidratação por soro continuou pelo restante da madrugada de quinta para sexta, sexta e sábado o dia inteiro e, no início da noite de sábado (12/10/19), entre 20h e 21h, mesmo em repouso absoluto dentro da unidade hospitalar, ela teve perda de líquido aminiótico, o que colocou dúvidas sobre a sobrevivência da bebê. A equipe de enfermagem de plantão nos disse que era necessário um exame de ultrassom na noite de sábado mesmo, para determinar se a bebê ainda sobrevivia. Nos explicaram que o hospital dispunha do exame, mas o profissional responsável pelo exame vinha até a unidade uma vez ao dia, em horário não determinado e que precisávamos aguardar, pelo menos, até a tarde de domingo (13/10/19) para realizar o exame de urgência e que, até lá, tudo o que se poderia fazer era ministrar remédio para dor e soro para hidratação. Diante do quadro, por recomendação de parte da equipe de enfermagem, tentamos realizar a transferência de minha esposa para um hospital de Cuiabá, onde a equipe da Clínica Intro havia disponibilizado uma equipe para realizar o pronto atendimento, já cientes do caso. Entramos em contato com o município, solicitamos uma ambulância, a ambulância ficou a disposição aguardando apenas a documentação necessária para a transferência dela na madrugada de sábado (12/10) para domingo (13/10). Entretanto, o hospital não autorizou a transferência, alegando que só poderiam autorizar se não houvesse equipamento de Ultrassom na unidade hospitalar. De fato, havia, mas só estaria disponível no domingo a tarde. Nossa médica que acompanha a gestação em Mirassol D'Oeste, havia chegado até o hospital para uma visita (por ser amiga da família de longa data) e, durante esta situação de crise, se prontificou a realizar (ela mesma) o exame de ultrassom utilizando-se do equipamento do hospital, já que o profissional do hospital não estava disponível. Isto nos foi recusado alegando questões administrativas e que a máquina de ultrassom do hospital era tercerizada. Houve sensível piora no quadro de minha esposa em questão de horas na madrugada de sábado para domingo, de modo que tanto a equipe de plantão, quanto nossa médica de Mirassol nos orientou que havia se tornado impossível realizar a transferência, pois havia o risco considerável de que minha esposa entrasse em trabalho de parto durante o trajeto de Cáceres a Cuiabá e que, diante do quadro, era provável a ocorrência de hemorragias que, se não controladas rapidamente, colocariam em risco a vida tanto de minha esposa quanto de nossa bebê. Fiquei de mãos atadas! Não podia mais, mesmo com ambulância de prontidão, realizar a transferência em virtude da piora do quadro e fui obrigado a esperar até domingo a tarde para saber, por meio de ultrassom realizado no próprio hospital, se nossa bebê ainda estava viva. Quando realizaram este exame, por volta das 16h de domingo, constatou-se perda significativa de líquido aminiótico, mas que nossa bebê estava bem. Adotou-se a partir dali a conduta de ouvir os batimentos cardíacos da bebê várias vezes por dia, para acompanhar o estado de saúde dela; realizar ultrassom diário e exames de sangue a cada dois dias para acompanhar um possível quadro de infecção. Os batimentos cardíacos permaneceram dentro da faixa da normalidade durante todo o tempo e esta conduta foi mantida, sem alterações, nos dias 13, 14 e 15 de Outubro, pois, segundo a equipe de enfermagem, a situação exigia apenas "espera" da evolução do quadro. No dia 15 de Outubro, por volta das 15h, minha esposa começou a piorar, com novo sangramento, fortes contrações e dores crescentes. Eu estava no hospital neste momento e chamei a equipe médica, através do posto de enfermagem. A equipe de plantão me disse que havia chamado o médico e que ele chegaria em instantes. Com a demora da chegada, comecei a ir até o posto de enfermagem a cada 10 ou 15 minutos, de forma insistente, até as 19h, quando precisei deixar o hospital e a resposta era sempre a mesma: espere que o médico já está vindo! Minha esposa continuou internada, acompanhada da mãe dela e eu retornei à Mirassol por questões de trabalho (sou advogado e haviam prazos processuais que eu precisava respeitar, mesmo sendo dono do escritório). Soube que depois de minha saída, as 19h de 15/10/19, minha sogra passou a cobrar no posto de enfermagem a chegada do médico e isso perdurou durante toda a noite, seguindo-se sempre a mesma resposta: aguarde que o médico está vindo! Pouco depois da meia noite do dia 15/10 para o dia 16/10, minha sogra, já desesperada, promoveu um escândalo no corredor do hospital, literalmente gritando pela presença do médico que "estava vindo" desde as 15h e não foi atendida. Uma das enfermeiras foi até o quarto e disse que a única coisa que poderia ser feito era passar remédio para dor, já que não havia outro medicamento prescrito. Perto das 02h00 (duas da madrugada) de terça (15/10) para quarta (16/10), minha esposa entrou em trabalho de parto prematuro e continou sozinha no quarto, acompanhada apenas pela mãe, até quase as 06 da manhã, quando uma equipe de enfermagem se deslocou para o quarto e, sozinhas, sem a presença de qualquer médico, seja obstetra ou pediatra, acompanharam o parto de minha esposa, que sofreu além do necessário, com dores extremas. Entregamos, quando na entrada do hospital, uma pasta contendo todo o histórico de exames anteriores e o hospital estava ciente do fato de que a nossa bebê encontrava-se em
posição que não permitia a realização de parto normal. Este fato se confirmou pois, segundo as enfermeiras, a bebê nasceu de costas, de modo que a primeira parte do corpinho dela a sair foi o bumbum e não a cabeça, como deveria ser. Estes traumas, aliados a problemas relacionados a perda do líquido aminiótico fizeram com que ela não sobrevivesse ao parto normal, tanto pela forma como nasceu como pela pouca quantidade de líquido aminiótico. Somente às 07h do dia 16/10/19, quando ocorreu a troca da equipe de plantão é que acionaram a médica que havia acabado de começar a trabalhar e ela, por volta das 07h10, compareceu no quarto onde minha esposa estava internada e, ao chegar, a bebê já havia nascido (natimorta). Pela forma como tudo ocorreu, minha esposa continuou sangrando por algum tempo, precisando ser medicada para forçar a remoção da placenta, que foi removida somente quando já eram 10h de 16/10/19. Assim que eu soube do que estava ocorrendo, por volta das 05h30m de 16/10, me dirigi até Cáceres mas cheguei quando mais nada pudia ser feito. Então, tudo o que me restou foi decidir, por orientação do hospital, se queriam que a bebê fosse "descartada" (palavras deles) por uma empresa especializada ou se eu providenciaria o velório dela. Fiquei o restante da manhã mexendo com papelada relacionada ao registro da certidão de natimorto no Cartório Civil de Cáceres para providenciar o enterro. Tão logo terminei isso, procurei a Ouvidoria do hospital, através do servidor Washigton, que me pediu para gravar minha manifestação, com a finalidade de encaminhar para a equipe dos diretores do hospital. Permiti. Fiz a reclamação. A partir daí, começaram a literalmente bajular a mim e minha esposa, como se isso fosse amenizar a nossa perda. Deixaram a médica de plantão, enfermeiros de prontidão, até psicólogo que nem solicitamos apareceu. Solicitei no administrativo cópia do prontuário, que disseram demorar até 10 dias para ficar pronto e que, até hoje, ainda não me foi entregue. Não nos deram explicações alguma: porque o médico não apareceu? Porque o parto dela foi normal, mesmo com orientação contrária nos exames? Porque ela não foi levada para uma sala de cirurgia ou outro ambiente que não fosse um quarto simples, para que pudesse, ao menos, ter um acompanhamento melhor? Sem respostas! Até agora, não sabemos como uma gravidez que até quarta-feira (09/10) estava completamente saudável, segundo laudos de médicos de Cuiabá e Mirassol D'Oeste, terminou dessa forma trágica, com a perda de uma bebê que não tinha nenhum problema de saúde anterior, conforme apontado pelo exame de Ultrassonografia de 2º Trimeste, realizado na semana anterior a internação. Quando ela tinha condições de ser transferida para Cuiabá, me negaram isso, mesmo eu providenciando o necessário; quando eu forneci meios levando uma profissional habilitada para realizar o Ultrassom em uma máquina que estava disponível, nos negaram também; a piora do quadro, diante da administração de remédios apenas para dor, me fez ficar na terrível situação de ter de escolher entre: pôr a vida da minha esposa e filha em riscos na estrada ou simplesmente aguardar, nas dependência do Hospital São Luis, a "evolução" (seja lá o que isso signifique) do quadro, sem que nenhuma providência fosse tomada além de remédios para dor (Buscopan, encontrado em qualquer farmácia). Alguém, definitivamente, errou aqui. Mesmo sendo profissional do direito, inscrito na OAB/MT, não tenho condições de conduzir isso e peço, não em nome de minha bebê, que ninguém trará de volta, mas em nome de outras gestantes que possam vir a frequentar o Hospital São Luis, em Cáceres, que uma providência seja tomada, que responsabilidades sejam apuradas e que haja, depois do devido processo legal, a punição dos responsáveis. Encaminho, em anexo, Certidão de Natimorto. Se solicitado, compareço junto com minha esposa na sede da Promotoria, para prestar mais esclarecimentos e entregar todos os exames relacionados à gestação, impossíveis de serem enviados por aqui, diante da quantidade. Por favor, não deixem este caso virar estatística!